A nova realidade do comércio exterior

Players do setor analisam os efeitos da pandemia e destacam o papel do Brasil no cenário global

3 de Junho de 2022

Por: Fernando Fischer

A atividade de comércio exterior foi fortemente impactada nos últimos anos. Os efeitos da pandemia do novo coronavírus ainda nem foram totalmente assimilados, e o mundo já se deparou com os percalços causados pela guerra entre Rússia e Ucrânia. Em um cenário de constantes mudanças, os players que atuam no setor precisam se tornar cada vez mais resilientes e flexíveis para estarem sempre preparados para transformações.

Gobersztejn, da Allink

Para Andre Gobersztejn, managing director da Allink, um dos maiores NVOCCs (Non-Vessel Operating Common Carrier) do Brasil, a logística internacional ainda está enfrentando os efeitos da pandemia, na medida em que ainda existe um cenário de caos logístico em vários países devido ao reflexo dos lockdowns, à falta de matéria-prima e a uma demanda reprimida.

“A pandemia ainda gera forte impacto em mercados importantes para o Brasil, como a China, que para proteger a população de novas variantes do vírus, tem constantemente decretado lockdown em várias cidades. Isso reflete diretamente no setor de logística com escassez de transporte, coletas de cargas, entre outros fatores, assim como na indústria, que sofre com a falta de matéria-prima básica em vários setores”, destaca o executivo.

“Além de China, mercados importantes como os Estados Unidos também estão sofrendo com escassez de mão de obra e transporte, o que tem gerado aumento de retenção de cargas nos armazéns e consequentemente alto nível de estoque de mercadorias para serem transportadas em navios que estão com capacidade saturada. Na costa oeste dos EUA, por exemplo, no maior porto de entrada e saída de contêineres do país no serviço entre EUA e Ásia, muitos navios sofrem atrasos de semanas para atracar e operar, o que gera congestionamentos enormes e impacta na rotação dos navios no tráfego entre os continentes. Esse cenário gera um aumento de fretes por parte dos armadores e isso tem reflexo em todos os outros mercados, na medida em que a oferta de navios está menor do que a demanda de cargas”, analisa.

“A pandemia certamente tem sido uma fonte de pressão nas cadeias de suprimentos globais nos últimos dois anos”, concorda Glaucia Megna, diretora de Vendas do Serviço Internacional da Fedex Express no Brasil, que indica que a situação se configura também em novas oportunidades para a companhia de remessas expressas. “Várias partes interessadas – transportadoras marítimas, portos, ferrovias, empresas de transporte rodoviário e transitários, incluindo nosso negócio de logística – estão trabalhando para lidar com congestionamentos e movimentação de contêineres nos portos de todo o mundo. À medida que as empresas procuram contornar alguns desses desafios de transporte marítimo, continuamos a ver uma forte demanda por movimentação de mercadorias via carga aérea e rodoviária internacional”.

Projeções para o mercado

Dantas, da Asia Shipping

As dificuldades enfrentadas pelo setor influenciaram fortemente os mercados globais, e o consumidor final sentiu diretamente no bolso os impactos desse cenário. Segundo Rafael Dantas, diretor Comercial da Asia Shipping, multinacional brasileira que atua globalmente no transporte marítimo e aéreo, no segundo semestre de 2022 deve ser possível perceber uma melhora nesse sentido. “O volume dos fretes aumentou drasticamente de 2021 para cá e, com isso, muitas empresas estocaram muitos produtos com o frete alto e ainda estão pagando por esses valores altos. Hoje os fretes deram uma aliviada, mas infelizmente isso não chegou até o consumidor final e o mercado deu uma acelerada. A partir da metade do ano, o consumidor deve sentir uma melhora nos preços finais, pois os estoques devem estar terminando”, explica.

Gobersztejn destaca, porém, que o reflexo da guerra entre Rússia e Ucrânia cria uma instabilidade no mercado de petróleo com reflexo direto no custo de combustível e, consequentemente, nos fretes. “Enquanto imaginávamos que a situação de transporte internacional iria paulatinamente se adaptar ao novo cenário pós pandemia, acabamos por nos deparar com outros problemas logísticos que criam incertezas para o futuro. A perspectiva que tínhamos era que os fretes, a partir do início desse ano, começariam a reduzir e que o fluxo de cargas voltaria aos patamares de 2019. De fato, houve uma queda em alguns tráfegos, mas isso não está ocorrendo em alguns mercados e nem na velocidade esperada. O que temos visto é uma extensão do cenário de caos logísticos ainda a curto e médio prazo. A longo prazo o que se espera é que as encomendas de novos navios comecem a ser entregues a partir de 2023, o que pode contribuir com a oferta de espaço e redução de fretes, caso não haja nenhuma outra surpresa nesse meio tempo”, diz.

Glaucia salienta que, durante a pandemia, o comércio eletrônico de pequenas e médias empresas surgiu como um dos principais fatores que contribuíram para o aumento da demanda por serviços internacionais. “A internet e as redes sociais têm sido facilitadoras para que as pequenas e médias empresas mostrem seus produtos ao mercado internacional e expandam seus negócios. Temos visto um aumento do interesse dessas empresas em nossos serviços, bem como no mix de produtos que exportam. Os EUA, México e Argentina são os principais destinos de pacotes para nossos clientes brasileiros de comércio eletrônico de pequeno e médio porte. Tivemos clientes que começaram a exportar com cerca de 10 a 15 pequenos pacotes por dia e hoje estão exportando cerca de 1.500 pacotes por dia”, conta a diretora de Vendas.

 Contexto brasileiro

Gobersztejn destaca que a Allink tem observado dificuldades para posicionar unidades e carregar contêineres em vários serviços no Brasil. Além disso, é possível perceber um incremento de fretes em muitos casos. “O cenário de logística atual impacta no Brasil diretamente, uma vez que armadores têm preferido utilizar seus navios em rotas com fretes altos, gerando falta de espaço no tráfego para o país”.

O diretor indica, porém, que a conjuntura global do comércio exterior representa boas oportunidades para o Brasil. “O setor logístico nacional tem se preparado nos últimos anos e a pandemia gerou um impacto positivo no setor na medida em que houve uma corrida por parte das empresas para se adaptarem ao novo cenário, investindo em inovação e tecnologia migrando para o mundo digital. Olhando do lado positivo, acredito que o Brasil tem evoluído e muitas empresas estão buscando melhorar suas performances com a reformulação de seus processos e redução de custos”.

Glaucia, da Fedex Express

“O comércio exterior brasileiro segue quebrando recordes. Nos quatro primeiros meses desse ano, o superávit foi de US$ 19,94 bilhões, segundo a Secretaria de Comércio Exterior do Ministério da Economia”, salienta Glaucia. “Há também acordos bilaterais sendo concretizados. O Brasil deve assinar um acordo com dez países da América Latina para acelerar a liberação de mercadorias. O tratado inclui Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica, Guatemala, Paraguai, Peru, República Dominicana e Uruguai”.

“O Brasil tem muita oportunidade a ser explorada, em especial na exportação, pois é um país muito pequeno quando comparado ao market share global”, analisa Dantas. “Ele representa 2,5% do mercado global de contêineres, o que é muito pouco para um país do tamanho do nosso. Além disso, com o momento de desglobalização, que vai tornar a América Latina um grande player para os Estados Unidos, o Brasil certamente terá um papel elevado na região. Estamos otimistas com o posicionamento do Brasil. Acreditamos que o país se tornou estratégico para o mundo, seja como mercado importador ou exportador. Numa possível reorganização global, vamos ganhar muito mais destaque e desfrutar muito desse papel no comércio internacional”,

“O Brasil configura como importante player na América Latina devido à sua extensão territorial e número de habitantes, sendo um mercado interessante para o comercio internacional. Setores como de produção de alimentos e commodity contribuem muito para uma balança comercial favorável para o país e coloca o Brasil em posição de destaque na cadeia logística”, completa Gobersztejn.

Infraestrutura

O diretor aponta, porém, que o país ainda apresenta deficiências em relação à infraestrutura que precisam receber atenção especial para aumentar ainda mais seu potencial no cenário global. “Não acho que estamos bem posicionados para atender um possível crescimento, todavia temos visto algumas iniciativas de investimentos do governo em infraestrutura no país, o que é positivo, mas é evidente que os maiores investimentos têm partido de empresas privadas preocupadas em melhoria de performance e se preparando para suportar um possível crescimento do volume de cargas no Brasil. Mas os investimentos em infraestrutura, privados ou não, ficaram suspensos devido ao período de incertezas que a pandemia trouxe”.

Dantas enfatiza que é preciso saber separar a infraestrutura brasileira pública da privada. “Quando falamos dos portos de contêineres, nós ainda temos capacidade para absorver o crescimento no Brasil. Nosso maior problema está na questão do transporte rodoviário, especialmente no que se refere às rodovias. Esse talvez seja o maior gargalo logístico a ser enfrentado em caso de um crescimento maior”, evidencia.

“A infraestrutura do Brasil tem melhorado nos últimos anos, mas ainda há espaço para incrementos em portos, rodovias, ferrovias e aeroportos brasileiros. As rodovias são o principal meio de transporte no Brasil enquanto os outros modais poderiam ser mais bem aproveitados”, acrescenta Glaucia. “Além disso, complexas estruturas regulatórias e tributárias domésticas geralmente apresentam desafios para os exportadores iniciantes”.

“Sempre houve a expectativa de o Brasil se posicionar como porta de entrada para a América Latina, aproveitando a extensão de costa marítima e investindo em infraestrutura de transporte de carga doméstica em todos os modais”, analisa Gobersztejn. “No entanto, sabemos que há entraves e burocracias que impedem ou prejudicam esse movimento. A instabilidade política e econômica do Brasil e de países vizinhos prejudica a evolução do bloco e reduz a capacidade de criar soluções logísticas que pudessem colocar o Brasil como referência na América Latina. O Brasil, como maior país do bloco, deveria fomentar essa iniciativa, buscar soluções disruptivas e criar uma jornada colaborativa que trouxesse mais investimentos para o país. Não há dúvidas de que o Brasil é reconhecidamente o maior mercado da América Latina, mas faltam iniciativas para que isso reflita o protagonismo que o país merece”, observa o executivo.

Mão de obra

O managing director da Allink aponta ainda que o Brasil precisa evoluir no quesito mão de obra. “Do ponto de vista de quantidade, acredito que estamos preparados para atender às novas demandas do mercado global. No entanto, há uma lacuna do ponto de vista de qualidade. Precisamos que haja mais investimentos na preparação de novas gerações focadas em tecnologia, visando buscar novas soluções para antigos problemas. Temos enfrentado dificuldades para preencher posições na empresa devido à escassez de bons profissionais que possam contribuir com novas ideias e soluções. Muitos dos profissionais que hoje atuam no mercado de logística estão presos a rotinas operacionais e não têm ou não buscam conhecimento para evoluírem em suas carreiras”, explica.

“Nosso nível educacional em relação ao nível mundial ainda é fraco. Isso é perceptível quando fazemos negócios com o exterior. O nível de inglês do brasileiro também fica a desejar. Temos que melhorar muito esses dois quesitos”, examina Dantas, diretor Comercial da Asia Shipping.

Para Gobersztejn, as empresas deveriam fomentar iniciativas colaborativas que provocasse interesse em novos talentos para o setor logístico. “Há muito espaço para evolução nesse mercado, principalmente no que diz respeito à análise de dados, informação e soluções digitais. O mercado de transporte e logística ainda é carente de soluções digitais, e inovação é palavra da vez que deveria ser tratada como prioridade dentro das empresas e nas universidades. O modelo de educação atual não irá formar profissionais capazes de competir em pé de igualdade com outros mercados e há um enorme risco de falta de mão de obra especializada a curto prazo se não prepararmos as novas gerações. É preciso que os empresários e executivos do setor também adotem uma postura mais moderna e que não estejam preocupados em buscar soluções digitais com o único intuito de reduzir custos de pessoal. Devemos ter um olhar mais estratégico, fomentar iniciativas criativas e fazer com que os colaboradores da empresa mudem seu perfil de atuação nas empresas e sejam mais analíticos ao invés de operadores e digitadores. Quanto mais preparado estiver o profissional, mas qualidade no atendimento poderá ser exigido e o resultado será o cliente mais satisfeito, gerando valor para a empresa que presta serviços logísticos”.

Tags: exportacao fedex comercio-exterior asia-shipping importacao allink


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